sábado, 6 de março de 2010

Adriano. O indivíduo. Por que o jogador de futebol é mais importante que a pessoa?

 
Adriano mais uma vez teve problemas pessoais. Mais uma vez. Não vou repetir toda a história aqui, acho que qualquer um que assiste televisão ou lê qualquer site de notícias já sabe (ou tem uma vaga idéia) do que aconteceu. Vou apenas propor uma pequena reflexão: quem nunca faltou ao trabalho por motivos pessoais?

As causas, honestamente, não me interessam; também não me importo de saber à quantos treinos ele falta, nem onde ele mora, ou se ele irá ou não para a Copa do Mundo. O que me interessa nisso tudo é: porquê ele é tão criticado?

Lembro que antes eu não gostava de Adriano. Principalmente quando ele jogava pelo São Paulo; parecia desinteressado, sem foco, apenas treinando e jogando como se aquilo não fosse nada demais. Como se vencer ou perder não interessasse, e como se ele pouco se importasse com tudo aquilo que acontecia em campo, ou fora dele.

Adriano era, na minha visão, um cara que não estava afim de estar lá. Ele tinha o talento, tinha o porte físico estraordinário, mas não tinha a vontade de jogar bola, simples assim. E jogava, insistia, por não saber fazer outra coisa, ou - prefiro acreditar nisso - por não querer fazer outra coisa.

E eu nunca vi absolutamente nada de errado nisso. Não gostava porque era o meu São Paulo, o time que eu torcia fervorosamente. E só. Então, de certa forma, comemorei quando ele voltou ao Flamengo, e vibrei mais ainda quando ele voltou a jogar demais, a querer ganhar, a ter gana. Era uma alegria interna ver ele lá, jogando, querendo a bola, simplesmente porque, bom, o Adriano é um tremendo jogador.

Agora, mais uma vez, ele passa por problemas pessoais. E ao contrário do que dizem, ao contrário do que foi dito e criticado, ele agiu de forma muito digna ao pedir para não jogar. O Adriano sem foco só irá atrapalhar o Flamengo; e a honestidade de ver que há algo de errado só mostra, para mim, o quanto ele amadureceu nesse tempo que se passou, entre a Internazionale e o Flamengo.

Se ele não quer treinar, problema é dele. É só Andrade não escalá-lo, mesmo porque, se ele o faz, é porque acha o Flamengo melhor com ele do que sem ele. A verdade é dura, mas é essa: o justo é tratar os desiguais desigualmente e, pombas, tecnicamente o Adriano destoa de todos os outros jogadores que atuam no Brasil. Perde-se o jogo coletivo, mas se compensa com talento. A partir do momento em que não compensar mais, ele provavelmente sairá do time. Porque por melhor que o cara seja, algumas coisas acabam injustificáveis.

Simplesmente forçá-lo a jogar, conforme defendem alguns jornalistas que acham um absurdo Adriano agir desse jeito, não vai adiantar nada. Ele não é uma máquina. Nenhum jogador é. Adriano tem problemas, e tem direito a ter problemas. Cobrá-lo por isso é um erro. Qualquer um, em qualquer outra profissão, poderia ter feito o mesmo, priorizando sua vida pessoal em detrimento da profissional na medida em que surgem problemas. Adriano não. Porque jogador de futebol é tratado como tal, sem direito a ser um humano. Sem direito a cometer erros, a não querer corrigí-los, a não mudar.

Porque Adriano pode muito bem jogar bola e continuar sendo ele mesmo. Continuar faltando nos treinos, tendo problemas familiares, bebendo, fazendo festas, ou seja lá o que for. É direito dele, e ninguém pode criticá-lo por isso. Nem exigir dele responsabilidade, ou qualquer outra coisa que o valha. Isso quem pode fazer é o Flamengo. Nós, e os jornalistas, não.

Quem nunca faltou ao trabalho por motivos pessoais que atire a primeira pedra. Eu já. E não entendo o porquê de jogadores de futebol não poderem fazê-lo.

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