sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Crise de Armero

Não acho Armero um lateral ruim. Na verdade, como lateral ele é péssimo mas, acreditem, eu vejo ele como um ótimo ala. Repito: ótimo. E quando digo isso quero dizer que, na minha visão, ele é muito acima da maioria dos jogadores do Palmeiras, Cleiton Xavier incluso.

Antes que os palmeirenses me atirem pedras (e espero que sejam só pedras) e gritem comigo, mandando eu levá-lo ao São Paulo, vou explicar um pouco melhor o parágrafo acima. Pablo Armero não sabe marcar e nem cruzar, o que significa que ele não é e nem tem vocação para ser lateral. O colombiano é ala. E ala que não marca e nem cruza, com Muricy, é um jogador tacado no lixo.

Dito isso, vem a primeira crítica: o problema dele é de posicionamento. E isso é culpa do técnico, diga-se de passagem. Muricy não tem respeitado as principais características de Armero, mandando-o marcar dentro da área na defesa e ficar fazendo chuveirinhos no ataque. Não acho que seja por aí. O lateral colombiano é muito técnico e tem um preparo físico impressionante, então porque não colocá-lo para jogar em velocidade, cortando para dentro? Volantes é o que não faltam para cubrir suas subidas e, jogando ao lado de Cleiton Xavier, numa triangulação com Joãozinho, acho que o Palmeiras tem muito a ganhar.

Só é preciso, antes, dar a confiança necessária ao jogador, que parece estar numa crise de nervos.

Neymar e o Paulista

Às vezes, eu me sinto um chato, feio e ranzinza com relação ao futebol. Não é que eu não aprecie o futebol-arte ou qualquer coisa do gênero, mas eu ando lendo uma série de exaltações - merecidíssimas - ao futebol de Neymar e chego à conclusão de que... Estamos sendo precipitados. Mais uma vez.

Não tenho dúvidas quanto ao talento de Neymar, assim como não o tenho com relação à outro que está jogando o fino da bola mas é menos lembrado, Phillipe Coutinho. Os dois são Craques, com "c" maiúsculo, daqueles que dá prazer de ver jogar. Só que estamos falando do campeonato paulista onde, há não muito tempo atrás, eu estava glorificando outro jogador, que parecia fadado ao sucesso: Keirrison.

Campeonatos estaduais, em geral, tem um nível técnico muito baixo. Um jogador muito acima da média, como Neymar, deita, rola, dá a patinha e ainda finge de morto quando enfrenta adversários fracos como esses. Ele ainda não está pronto para o futebol europeu e, mesmo no âmbito nacional, ainda tem muito a crescer.

Isso não é uma crítica. Não acho a promessa santista superestimada, ou qualquer coisa do gênero, como acho que não me enganei com relação à Keirrison (cujo principal defeito, a falta de personalidade, tem sido decisivo para o fracasso - até então - de sua carreira). Apenas fica a ressalva: estamos falando do campeonato paulista. Por ora, isso é suficiente.

Feita a lembrança, vamos aproveitar o talento desse menino, vendo-o jogar. Sem ficar perdendo tempo comparando-o a Robinho, Pelé, Garrincha, ou quem quer que seja.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

André Dias e a defesa do São Paulo

Ontem, último dia de transferências para o mercado europeu, o zagueiro André Dias se foi do São Paulo. Em termos financeiros, foi uma boa. A Lazio não é mais a mesma, e já à alguns anos que estão na pindaíba, mas sempre vale a pena lembrar que 2,5 milhões de euros por um zagueiro de trinta anos é, economicamente, uma boa pedida.

O que o São Paulo perde, porém, é na qualidade defensiva. Se antes os são-paulinos babavam só de pensar um trio de zaga formado por Miranda, André Dias e Alex Silva, com André Luiz e Xandão no banco, hoje a situação mudou um pouco.

Renato Silva não sabe se fica, e não inspira a mesma segurança que os outros. André Luiz está suspenso da Libertadores por alguns jogos, e Xandão, embora seja um ótimo zagueiro, está meio cru. Acho que ano que vem sim ele vai ter condições de assumir a titularidade do tricolor paulista.

Considero essa o melhor momento para se dar chance a Bruno Uvini. Pouco se fala nele no time principal, mas seria uma experiência interessante. É muito mais talentoso que Renato Silva, e só tem a crescer. Com um elenco defensivamente reduzido, como é esse São Paulo, oportunidades de jogar não faltariam. E, assim, aos poucos, o jogador iria crescer e mostrar seu valor.

Fim de semana dos clássicos

No Corinthians, Danilo tem jogado muito. Tanto quanto, ou mais, do que se via no São Paulo, porque agora ele me parece mais disposto em campo. Mas não foi ele o fator decisivo do 1 x 0 sobre o Palmeiras. Não o único.

Felipe, o criticado Felipe, foi muito bem. Também o foi a zaga, entrosada, de anos jogados juntos. Mas o destaque, destaque mesmo fica aos pés de Jorge Henrique. O ex-botafoguense tem sido decisivo nesse começo de ano do Corinthians, puxando a responsabilidade no ataque. Ronaldo acaba atraindo atenções extras para si, assim como os outros jogadores - Danilo, Tcheco, Defederico - e tem sobrado espaço para Jorge Henrique brilhar. Até agora, tem dado certo.

O Internacional, de técnico novo mas elenco velho, também foi superior ao Grêmio de Silas. Questão de entrosamento. No Fla-Flu, o melhor desses jogos (e o único que não ficou no placar de vitória simples), destaque para Fred. E Adriano. E Vágner Love.

Em comum aos primeiros clássicos do ano foi: venceu o mais entrosado, o que teve menos reformulações de um ano para outro.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Acertando os ponteiros

Aos poucos, os clubes mineiros vêm montando um elenco respeitável para esse ano de 2010. Vou pensar um pouco em cima do time do Atlético Mineiro agora, muito por conta do último reforço da equipe, o zagueiro paraguaio Júlio César Cáceres.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de estrangeiros na defesa atleticana. O gol começa com o ótimo e irregular Carini, e na zaga, que agora tem Cáceres, tinha já o equatoriano Jairo Campos (além do também paraguaio Juan Benítez) que, admito, nunca vi jogar.

Cáceres vem pelo valor de 800 mil dólares (segundo o Olé) e para uma posição que precisava de reforços. Eu não sou muito fã do futebol do paraguaio (e nem o Boca, que queria se livrar do jogador já à alguns meses), e acho que no Brasil temos pelo menos uns trinta zagueiros melhores do que ele, mas vale a tentativa.

Às vezes eu não entendo essa contratação de gringos, porque muitas vezes eles nada tem a contribuir. Uma coisa é você ir lá e trazer Tevez, D'Alessandro, eventualmente até Reasco. Outra completamente diferente é se dar ao trabalho de ir buscar Ortigoza no Paraguai ou, um caso mais extremo, Saavedra no Chile. Não faz muito sentido, já que bons jogadores é o que não falta aqui.

De qualquer modo, esse time do Atlético me parece muito mais arrumado do que outros, como Botafogo, Palmeiras ou Santos, por exemplo. Arrumado e qualificado. Para mim, Luxemburgo tem no Atlético uma chance de ouro, justamente por isso. Esse time é disparado o melhor que ele tem em mãos desde os longínquos anos de Zé Roberto, Rodrigo Souto e Cléber Santana no Santos.

No gol, o irregular Carini tem como sombra o ex-ponte pretano Aranha. Acho que os dois goleiros tem lá suas falhas, mas se pensarmos que Felipe é titular no Corinthians e ontem jogou o Deola no gol do Palmeiras, eu fico muito menos ressabiado; especialmente porque o terceiro goleiro, Renan Ribeiro, não só é muito bom como é jovem e, em um ou dois anos, deve assumir a titularidade da equipe.

Na zaga, temos os já citados Cáceres, Jairo Campos e Benítez, além de Werley, Welton Felipe e Samuel. Eu colocaria em campo como titulares os dois últimos citados, principalmente porque acho Welton Felipe um zagueiro acima da média. Mas duvido muito que Luxemburgo deixe esses três estrangeiros na reserva (desses, acho Benítez melhor que Cáceres. Jairo Campos, como eu disse antes, nunca vi jogar).

Nas laterais, Júnior deve ser titular, com Leandro fazendo sombra e, pelo flanco direito, Coelho é muito bom. No meio de campo, um losango com Carlos Alberto, Ricardinho, Correa e Renan Oliveira é de dar inveja, e no ataque Diego Tardelli faria uma boa dupla com o veloz Muriqui. Na teoria, o Galo tem tudo para dar certo. Com ou sem Obina...

Robinho e o Santos

Visando a Copa do Mundo, Robinho seguiu a maré de Fred, Nilmar, Ronaldo, Roberto Carlos e tantos outros e voltou ao Brasil. Voltou para um clube que tem laços e o vê como um filho, que saiu e agora retorna - talvez arrependido. Não pretendo entrar na onda de muitos jornalistas, que se utilizam do Robinho enquanto exemplo de jogador moleque e irresponsável, que se acha capaz de fazer o que quer e quando quer. Não penso assim, embora isso não venha ao caso.

Interessante será ver como Robinho irá se encaixar nesse Santos. O Lance fez uma boa análise, colocando o possível posicionamento do jogador como aberto pela direita. A equipe então jogaria num 4-3-3, com Brum e Mancha fazendo a dupla de volantes, Paulo Henrique Ganso armando o jogo para Robinho e Neymar, aberto como pontas, e com André fazendo o atacante centralizado.

Eu pensei da mesma forma, embora colocasse Neymar pela direita e Robinho pela esquerda. A bem da verdade, os dois jogam na mesma posição, mas acho que é algo conciliável. Wesley deve mesmo perder a vaga de titular.

O problema é que Robinho - por melhor que seja - foi um reforço que não contribui muito para o maior problema do Santos, a defesa. Vamos ver como essa equipe vai se sair no decorrer desse primeiro semestre.

O Palmeiras dos sem gols

Eu ainda acho que o Palmeiras contratou bem, muito bem, obrigado. Edinho, Márcio Araújo, Eduardo.. Nenhum desses são reforços mais ou menos, mequetrefes. Todos tem qualidade e chances de contribuir e ajudar o time.

O problema é no ataque. Conforme bem disse o PVC, Joãozinho, Anselmo e Daniel Lovinho não são opções; na verdade, eles apenas revelam a falta delas.

Vou um pouco mais longe. Robert não é jogador para o Palmeiras. É um bom atacante, sim, mas para times medianos. O Palmeiras não tem ninguém (retipo: ninguém) capaz de segurar a bronca lá na frente. Nessas horas, é sempre bom olhar um pouco mais o mercado... Porque se a defesa não toma gols, o time começa bem. Mas se o ataque não faz, a irregularidade pode transformar um time bom em medíocre. O Palmeiras da vitória magra contra o Monte Azul revelou isso. Um time que jogou bem pelas pontas, com Gabriel Silva e Figueroa, mas que não teve chegada.Nem para chutar a gol...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Humilhação


Difícil explicar as causas e os motivos de uma goleada sofrida. Depois do jogo, do baque, é muito fácil arranjar culpados: os jogadores são ruins, o time do Botafogo é limitado, Dodô é craque, o Vasco é infinitamente superior.

Não concordo com nenhuma dessas análises. Em primeiro lugar, o time do Botafogo não é sensacional, mas também não é um time para se tomar de seis de um Vasco que acabou de ser promovido.

O que impressiona é que o time do Vasco não tem toda essa bola, nem futebol para tanta euforia. Noves fora o estreante Phillipe Coutinho, que é craque, a equipe cruzmaltina tem em mãos um time limitado. Ernani e Mário Careca não passam confiança para a lateral-esquerda, não há bons zagueiros reservas, e mesmo entre os volantes Léo Gago se destaca como o melhor, o que significa - no mínimo - que os outros são de qualidade bem mediana. É um time bom e barato, com qualidade do meio para a frente, mas que não tem reservas à altura do time principal.

Foi um jogo atípico, como são todas as goleadas. Não se pode fazer análises ou prognósticos em cima disso, ainda. A princípio, o Vasco da Gama tem futebol superior. Mas nada impede que a temporada diga o contrário.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Parceiro Novo, Eternamente na Luta

Acrescento aí um blog novo no Parceiros, que é o "De Branco e Preto", escrito pelo Coco. É um blog voltado para a torcida santista, então tem pouco a ver com a temática desse espaço, já que aqui a gente tenta falar do futebol brasileiro como um todo, e com um enfoque mais - vamos chamar assim - jornalístico.

Eu particularmente acho importante ver as duas faces do futebol (embora saiba que são muito mais que duas), a do jogado dentro de campo e ao que ele agrega; futebol enquanto instrumento político.

Esse blog trata mais do primeiro, embora volta e meia dê uma recaída para o segundo. O do Coco eu não sei como vai ser ainda, já que ele está engatinhando na idéia.

Mas já tem nosso apoio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Rodrigo Souto e Arouca

Não vou na contramão da maioria das pessoas que analisaram essa troca, e acho que nem teria como. Eu particularmente sempre defendi o Rodrigo Souto não só no meu São Paulo, como na Seleção Brasileira por um lado e, por outro, sempre apostei no potencial do Arouca, desde os tempos no Fluminense.

O que mais me agrada nessa troca é o tempo: um ano. Digo isso porque eu vejo no Arouca o perfil ideal para substituir Hernanes no São Paulo. À muito tempo atrás, no começo desse blog, eu fiz um post falando justamente sobre como o jogador rendia melhor. Na posição de primeiro volante, saindo para o jogo, pelo lado direito do campo, armando a equipe desde trás. Curiosamente, naquela época eu já havia comparado ele ao Hernanes, e continuo pensando da mesma forma. Os dois tem estilos de jogo completamente diferentes mas, taticamente, exercem a mesma função em campo.

No Santos, desconfio que ele deve ser usado ao lado do Roberto Brum, deixando assim o Rodrigo Mancha na reserva. Subindo às vezes, deve acrescentar muito jogando ao lado do Paulo Henrique Ganso (que é craque), além de entrar na mentalidade da equipe: um time jovem, ousado e veloz.

O São Paulo, por outro lado, deve mesmo colocar o Rodrigo Souto como primeiro volante pela esquerda, ao lado de Hernanes. Hoje, tirar Richarlyson ou o Jean da equipe parece heresia, mas não vejo outra forma. A menos que os dois continuem sendo sub-aproveitados nas laterais, o que para mim seria pior, já que é um desperdício de talento.

De qualquer forma, os dois times saem ganhando. O São Paulo recebe mais opções de qualidade (numa posição que, sempre vale a pena lembrar, não precisava de reforços) e o Santos ganha um titular de qualidade indiscutível, para fazer uma função que encaixa perfeitamente nesse esquema tático que o Dorival Jr. vem tentando implantar na equipe.

Vágner Love e Flamengo


Vágner Love e Adriano é, aparentemente, uma boa dupla de ataque, considerando que o Flamengo manteve a base da equipe que foi campeã brasileira no ano passado. Digo aparentemente porque eu perdi as minhas expectativas no futebol do artilheiro do amor já faz algum tempo.

Se colocarmos na balança, Vágner Love teve um único ano em que mostrou ser realmente um atacante diferenciado: 2002. E, nesse ano, ele se destacou jogando na limitadíssima segunda divisão do campeonato brasileiro; ou seja, de lá para cá, ele tem lampejos, alguns bons jogos, um ou outro gol bonito. E só.

Love não é artilheiro, aquele camisa nove que o Palmeiras achou que ele seria (pra constar, na Rússia ele jogava com a 11). É mais para um segundo atacante, de dribles curtos e velocidade. Ele também não sabe assumir a responsabilidade de um ataque sozinho: se você for articular seu ataque em torno dele, pode esquecer que não vai dar certo.

Isso me leva a uma outra reflexão. A de que Vágner Love tem tudo para dar certo no Flamengo, embora eu não bote fé que ele vai voltar para a seleção. Primeiro, essa é a oportunidade de ouro na carreira dele. Na Rússia, ninguém via ele jogar, e ainda por cima o cara tinha que brigar por uma vaga junto com outro atacante, que eu considero melhor, que é o Jô. Love, no Flamengo, não vai ser a estrela principal do time, não vai ter que carregar o clube nas costas, como era no Palmeiras sem o Diego Souza, e não vai precisar ser o camisa 9 do time. Vivendo na sombra de Adriano, jogando ao lado dele, como segundo atacante, Love tem tudo, dessa vez, para encaixar na equipe e se tornar um jogador próximo do futuro que dele se esperava quando surgiu no Palmeiras.

Taticamente e psicologicamente, acho uma contratação perfeita, embora arriscada. Mas, nesse Flamengo, ele pode ser o cara que faltava para essa equipe dar aquele passo, e rumar para um primeiro semestre perfeito. Sinceramente? Tenho mais medo do Flamengo do que do Corinthians nessa Libertadores.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Comentários ao post anterior

Vou me dedicar mais ao assunto do post abaixo, a saber, da proibição feita à torcida do Monte Azul de entrar com uma bandeira do Chê Guevara no estádio simplesmente por ser considerada pela PM uma "apologia à violência" (grifo inteiramente meu).

O Lédio Carmona fez um post interessante discutindo a questão, embora eu discorde minoritariamente do foco que ele atribui. Carmona argumentou que a medida (de proibir imagens e objetos que possam estimular a violência, tais como as referidas bandeiras) basicamente não ataca no foco do problema, que seria a violência nos estádios. Concordo. Acho interessanta também a separação que ele faz dos "bandidos infiltrados nas organizadas" e dos torcedores organizados em si, o que mostra no mínimo um certo tato ao tratar do problema, tato este que o Flávio Prado (me pergunto como esse cara consegue ser jornalista até hoje) não tem.

Começo a discordar, um pouco, na problematização. O futebol para mim tem um caráter violento, passional, que não deve ser reprimido, pelo menos não inteiramente. Acho o descontrole natural no esporte (não estou fazendo apologias à violência, ouviram?), sobretudo nos torcedores. Questão profunda de identidades. Organizarmos uma Copa, elitizada, com bancos numerados como quem vai à uma peça de teatro (apenas para aplaudir) é acabar com o futebol. Os torcedores não são meros telespectadores, e não devem ser tratados como tal. São partes integrantes do esporte, e tem o direito de se envolver dentro dele (não existiria futebol sem torcedores, óbvio). A violência é parte do futebol, enquanto fenômeno moderno. Acabar com ela é transformar o futebol em lazer, tirando de si seu caráter mais interessante: o amor que ele provoca (e que amor intenso não é, em certa maneira, violento?).

Pontualmente, discordo também de uma palavra usada por Lédio Carmona: punição. Acreditar num sistema punitivo para mim é ingenuidade. Reflexo dos meus tempos de estudante de Direito, talvez, onde cegamente - e sem reflexões mais profundas - se tentam sempre resolver os problemas sociais criando mais e mais leis, diminuindo mais e mais as liberdades. Punir, nos termos atuais, não resolve nada. Não estamos lidando com animais, para enjaulá-los, retirando-os do convívio social normativo e colocando em outro, punitivo. É preciso buscar outras formas de resolver o problema, se é que isso é um problema a ser resolvido.

O Começo do Fim

Segue no Estadão que a PM proibiu a entrada de uma bandeira feita por torcedores do Atlético Monte Azul com a face do Chê Guevara estampada, por ser uma "apologia à violência". Ainda nessa primeira rodada do Campeonato Paulista, a torcida da Ponte Preta também teve sua bandeirona, com o Chê macaco, proibida de entrar no estádio sobre a alegação de que "ou vocês assistem o jogo ou vocês fazem festa".

Acho difícil e complicada essa atitude da polícia, simplesmente porque as duas justificativas acima dadas para a proibição da veiculação de tais imagens são absurdas. E se colocássemos a imagem do Fleury, também seria apologia à violência? No caso do Estadão, a minha crítica se torna ainda mais contundente, pois o policial entrevistado alega, em uma análise extensiva, que seria também uma apologia ruim exibir a imagem do Bob Marley por ser vinculada à da maconha.

Então vamos proibir as televisões de publicar notícias sobre o André Agassi, que tal, já que ele confirmou ser drogado. Tudo isso me parece exigir uma reflexão mais profunda sobre o tipo de torcidas que queremos nos estádios. Não podemos nos deixar levar sobre a idéia de que as organizadas devem ser banidas, e seguir segamente o projeto inglês de futebol, onde as classes mais populares simplesmente foram excluídas e os estádios, elitizados. O futebol é popular, é lúdico, é vinculado à identidades fortíssimas. Elitizá-lo seria o primeiro passo para seu fim. Ele é diversão, e não espetáculo.

Por favor, não deixem que o governo - com projetos e propostas superficiais, que passam longe da raiz do problema - acabem com nosso esporte.

ps: uma sugestão; já que é apologia à violência exibir uma bandeira do Chê Guevara nos estádios, que tal proibirmos a entrada da polícia pelo mesmo morivo?