Estávamos em Pisa, e decidimos - ou melhor, eu decidi - passarmos na cidade de Livorno, que fica à uns 20 km de distância apenas. O objetivo? Conhecer o estádio Armando Pichi, do A.S. Livorno e, se possível, arranjar uma camiseta do clube.
Sempre tive a impressão de que a torcida do Livorno era altamente politizada. Considerados em sua maioria comunistas e de extrema-esquerda, os ultra do clube sempre ostentam, em seus jogos, bandeiras do Che Guevara além de cantarem com frequência (especialmente quando enfrentam Juventus e Internazionale) o hino de resistência Bella Ciao. Maior exemplo do que ocorre fora de campo, o atacante Cristiano Lucarelli. Símbolo do clube tatuado no braço, comemorando seus gols com o punho direito erguido, comunista declarado, ele é um torcedor que se realizou seu sonho de virar jogador no clube para o qual torcia.
Admito que minhas impressões foram, no pouco espaço de tempo em que fiquei na cidade, bem concretizadas.
Era de noite, e uma noite de chuva quando chegamos no A. Pichi. Entramos no estádio, e na parte coberta da arquibancada alguns garotos, todos na faixa dos treze anos, se aqueciam. De um lado, os meninos do Livorno. De outro, os da Juve. Perguntei para o técnico das canteras se eu poderia subir na arquibancada. A resposta foi positiva.
Subi, e vi o estádio. Lágrimas quase escorreram dos meus olhos de emoção, admito. O lugar era pequeno, feio, passando longe do processo de modernização que vêm ocorrendo nos estádios europeus (digno mesmo de clubes da Série B do Brasileiro). Um símbolo de resistência em plena primeira divisão da liga italiana.
Saio, procurando por algum indivíduo que pudesse me indicar onde alcançar uma camiseta do clube. Vou parar na única luz acessa na parte externa do Armando Pichi, uma enfermaria. Pergunto para o enfermeiro, numa mistura de inglês, mímicas e português, onde eu poderia achar o manto do Livorno. Ele sorri e me leva - em plena chuva - para uma parte superior do estádio. Paro, e olho com calma: era a sala da presidência.
Óbvio que o dito cujo não estava lá; mas estavam alguns diretores das categorias de base, que me indicam uma loja no centro da cidade. Um deles anota o endereço num papel e me entrega. Agradeço, e volto para dentro do estádio, onde vejo um bar que fica em frente ao gramado. Bar não. Boteco. E não esses botequins de luxo, um autêntico barzinho de esquina, que vende pinga barata à 50 centavos.
Alguns senhores estavam conversando, sentados, numa mesa. O assunto era óbvio: futebol. Alguns deles estavam com a jaqueta do clube, outros com a camiseta. Interrompo na cara dura a conversa animada deles, pedindo informações sobre a dita loja. Um desses senhores falava inglês, para meu alívio. Boa gente, ele me indicou o caminho, fazendo o favor de ligar para o dono da loja (eu estava com medo de que a loja estivesse fechada, por conta do horário) para avisar que uns chineses estavam indo lá comprar uma camiseta do clube. Chineses não, brasileiros, interrompi. O senhor me olhou meio assustado: Brasileiros? Se você é brasileiro, então eu sou comunista!
Analogia interessante. Acho que pouquíssimos pensariam numa comparação dessas. Só me fez pensar ainda mais sobre a politização da torcida, que se confirmaria outras vezes mais tarde. Enfim, avisado o dono da loja, nos pusemos a caminho.
Ainda tivemos tempo de parar em uma padaria, que ficava a alguns metros da dita loja. Pôster do Livorno na parede, junto à um cartaz: A.S. Livorno não trata de futebol, e sim de política. A falta de tempo e a pressa não me deu tempo de perguntar para o velhinho sobre o cartaz. Mas saí ainda mais confiante do posicionamento político dos torcedores desse clube incrível.
Duas lojas depois, a Baldi Sports. Única loja oficial do clube da cidade, ou melhor: do mundo. Entro, enquanto compro minha camiseta do clube e converso com o filho do dono da loja. Pergunto a ele sobre qual camiseta comprar: eu queria a do Protti (Igor Protti: 10 forever), que já havia se aposentado. Ele me explica que do Protti a fábrica não fazia mais, justamente por isso, mas que indicava as do Lucarelli, Tavano e Galante. "Os outros não prestam. Só esses três".
Dos três indicados, pergunto qual ele preferiria. A resposta me surpreendeu: Tavano. Porquê não Lucarelli? "Lucarelli não. Ele é comunista". Olho de lado, e peço a do Fábio Galante. Ele fica meio irritado, e eu não tive tempo de me explicar: o Tavano joga com a 10, e eu só compraria esse número se fosse a do Protti. Senão, não.
De qualquer forma, adquiro uma camiseta do Galante, número 6. Ainda tenho tempo de jogar um pouco de conversa fora, e descobrir que o agora vendedor foi um jogador das canteiras do clube. Não entendi direito se foi no profissional ou na base mesmo, mas ele me disse que sua estréia foi contra a Internazionale. "Contra qualquer outro clube teríamos ganho, mas era a Inter! Não tinha como. Fomos massacrados, e eu nunca mais tive uma chance". Pergunto então porque ele não procurou outro clube para jogar. A resposta foi de dar lágrimas nos olhos: "Depois disso [do jogo e da falta de oportunidades no clube] eu perdi a magia de jogar bola. Não é mais a mesma coisa. A magia se foi, se foi...".
Assim, com um depoimento emocionado, me despedi da cidade e do clube. Clube que me mostrou, em poucas horas, a politização de sua torcida, que leva um senhor a brincar com o comunismo, a outro colocar um cartaz em sua loja dizendo que a escolha do Livorno não era futebolística, mas sim política, e outro que admite não gostar do ídolo do clube por este ser comunista declarado. Clube que me mostrou como uma torcida deveria se comportar, aliás: como qualquer indivíduo deveria agir, não apenas enquanto torcedores, mas enquanto seres sociais.